segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Castelo de areia

"(...) e eu não tive tempo de dizer
que quando a gente
precisa que alguém fique

a gente constrói qualquer coisa,
até um castelo." CFA


Foi como roubar doce de criança. Você achava muito divertido. No final de cada gargalhada você se jogava nos meus braços, com falta de ar. O problema é que eu adoro crianças. Eu amava você mais do que tudo. Por você eu aprendi a me divertir às custas deles. Mesmo que fossem crianças. Ora, tanto faz. Era você que me deixava vermelha de tanto rir. Eu te devia isso. E nós fomos mentindo, como se toda a nossa história não passasse de uma grande brincadeira. Brincadeira das mais engraçadas, eu digo. Eu me diverti. Pode apostar que nem na hora de dormir aquele sorriso saía do meu rosto. Eu costumava ter muitos pesadelos, você lembra? Acordava assustada, com a cara igual a daqueles menininhos quando a gente tomava o doce das mãos deles. Mas era só olhar pro lado esquerdo da cama que eu te via dormindo. Você tinha um meio sorriso muito discreto nos lábios. Pronto, eu já tava feliz de novo. Virava pro lado e já tinha esquecido que houvera um sonho ruim. Fiquei te devendo mais essa. Tanto faz, eu acabei te prometendo o infinito. Você continuava perdendo o ar quando tinha crise de riso. Eu tava falando sério. Você continuava se divertindo. Como era bom te ver feliz. Como me compensava uma semana de ansiedade te ver sorrir, mesmo que fosse só na quarta-feira. Só por obrigação. Você é linda, eu dizia, mas quando terminava percebia que você já havia pegado no sono. Não se preocupa, eu pensava, mas você já não ouvia. Eu continuava entrando no ritmo da tua brincadeira quando era de manhã. Até comecei a construir castelos, inventar rosas, margaridas e jasmins no nosso jardim. Eu disse a você que aprenderia a fingir muito bem só pra não deixar de te fazer feliz. Quando eu dei por mim, nós já havíamos fugido dos vilões. Você foi me levando pelas mãos e ah! eu te transformei no herói daquele conto. Quantas daquelas crianças tiveram um herói? Deixa pra lá, eu tinha um e era de verdade. Ainda que fosse tudo fantasia. Acontece que no meio de todo esse faz-de-conta eu já não conseguia destruir o teu castelo pra te alegrar com um maior. O tempo passou e os jasmins perderam o cheirinho doce que você tanto gostava. Eu tentei de todo modo te dizer que tudo bem aquilo era de mentira mesmo, só que quando eu tentei acordar pra te ver dormindo do meu lado - o lado esquerdo, o que você preferia - não deu. O teu castelo continuava debaixo do céu do azul mais bonito que a minha imaginação conseguiu te dar, mas você já tinha tanto poder na minha historinha que a minha imaginação ficou pequena pro que você precisava. As coisas foram perdendo o sentido. Todo aquele jardim, aquelas margaridas tão simples, embora lindas. Você era meu herói mas de repente eu virei a vilã. Como isso foi acontecer com a gente, eu te perguntava, e você sorria. Eu só não entendia como podia ser verdade que eu já não controlava o que eu te escrevia. Aí eu lembrei que não era. Era tudo de mentira.

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