sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Resisti a levantar, enrolei e fingi que não sabia que tinha passado da hora. Meu celular tocou e não era mais o despertador lembrando meu atraso. Uma mensagem: 'Cadê você?'. Pulei da cama por algum motivo implícito nas tuas palavras. Saí correndo e olhando o relógio a cada minuto, querendo que o tempo não tivesse passado tão depressa. Escondi a insônia com os óculos escuros. Besteira minha, você sabia que eu não te deixava esperando à toa, alguma coisa não tinha ido bem. Tirei os óculos pra te olhar dentro dos olhos, quando te encontrei e percebi que você precisava mais de mim, do que eu de você. 'Me desculpa pelo atraso?', eu te encarei, você tinha olhos baixos que não me eram estranhos. Com um incômodo imediato lembrei de onde eu conhecia aquele olhar. Da primeira vez você se despediu segurando o coração nas mãos pra não chorar, mas o meu nunca aguentou. Naquela época ainda tinha dúvidas se podia mesmo existir tanto afeto, como eu sentia e tinha. Da segunda vez te contei dos meus planos e você não hesitou em vir comigo. Adoro como você compra minhas idéias mais sem pé nem cabeça. 'É claro que eu topo!', com ênfase no ponto de exclamação. Não podia dar errado, formamos a dupla perfeita pra aventura mais descabida. Raramente alguém faria melhor - se pelo menos tivéssemos feito. A falta de tempo cortou nossas asas quando nós já íamos pelo meio das nuvens. Não precisava ter repetido três vezes que, mesmo não podendo, você queria muito me acompanhar. Eu acreditei mesmo antes de te ouvir. Eu sei que você queria vir e até já tava vindo, pelo meio do caminho. 'Eu te desculpo', mas ainda não desisti de você. Eu sabia que ia te cruzar ainda outras vezes. E quando isso aconteceu eram meus os olhos que brilhavam de ansiedade por qualquer castelo de areia que nós fôssemos construir dessa vez. A segurança de ter você pra me dizer se eu tava certa ou errada, e eu fui acreditando, mudando, ficando melhor, crescendo. Devia ter agradecido mais vezes, todas as vezes. Mas com você as coisas aconteciam de maneira tão simples, que eu não me dava conta de que eram significativas demais pra você, e acabariam sendo pra mim também. Em algum momento me distraí da tua inteligência que me prendia e olhei com mais atenção ao nosso redor. Aquele lugar era a minha zona de conforto. Doeu usar o verbo no passado, mas você entenderia o medo de entrar lá e encontrar alguém que não é você nem a firmeza que eu tinha nas pernas. Então des-conforto. Hoje cedo eu nem desconfiava daquele abraço estrangulado de uma saudade que conseguiu se antecipar à falta da gente nas próximas semanas. A sinceridade com a qual você honrou as palavras, depois o abraço. Você apertou minha mão - como apertava seu coração naquela primeira vez, com força, mas com muito cuidado - e teve que ir de novo. Queria te pedir, por favor, pra não deixar as lágrimas que eu via nos teus olhos caírem, porque era ainda cedo da manhã, o dia tava claro e tinha muita surpresa pela frente. Quando eu era criança, entendia surpresa como pirulito, balão, presente ou alguma coisa colorida, grande e bonita de ver e sentir. Descobri que não necessariamente. A surpresa destroçou nossas melhores expectativas, tão merecidamente transformadas em certezas. Tudo bem não ter ficado junto antes, tudo bem da segunda vez também, mas agora eu tava contando com você. Deu raiva, mas logo você me convenceu que não deixasse. Respondi 'tudo bem' mais uma vez. Você deixou as lágrimas caírem e grudou os olhos nos meus, com aquele mesmo olhar que havia me doído antes, mas ainda mais dessa vez. 

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