quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Oba, lá vem ela!

De repente a vi passando diante de meus olhos. Não, passando não, porque parece pessimista demais. Desfilando também não. Nem combina muito com o jeito-sem-jeito que carregava na camiseta branca, shortinho e sandália rasteira. Carregava um inspirador sorriso no rosto. Talvez ela estivesse mesmo flutuando. Assim como quem não tem os pés no concreto do chão nem da vida. Assim como se fosse leve. Ao contrário do que todos comentavam nas redondezas. Aliás, era do tipo famosa. Quase inalcançável aos olhos das multidões, que levavam vidas inteiras esperando vê-la. Olhando assim, ninguém diria. Ouvia por aí rumores de ser essa mulher um poço de ingratidão e injustiça. Desleixada do jeito que eu a percebia, sei não. Uns conhecidos - e digo isto porque era deveras difícil mantê-la por tempo suficiente de criar laços mais duradouros do que fugazes - resmungavam que tanto haviam feito para conquistá-la e nunca foram reconhecidos. Embora se julgassem muito merecedores, veja bem! Outros levavam noites em claro pensando alguma maneira de trazê-la. Alguns apostavam, literalmente, suas fichas que o dinheiro era a garantia de tê-la. Pois vendo aqui, de perto, não tem cara de quem precise disso não. Mais independente, muito mais. Nos bares os bêbados choravam que a falta daquela mulher era suas tristezas. Por outro lado,  para tê-la que o sujeito se mantinha bem vivo. De outro modo, não poderia buscá-la - ainda que tão somente em seus sonhos. Os mais velhos, vendo geração após geração lutando - e morrendo - por ela, teimavam que era perda de tempo. Não adiantava se munir de ideologias e planos, nem armas ou discursos românticos. Era preciso apenas de uma habilidade e pronto, ela vinha como sob o poder de um imã. Habilidade de poucos, quase nenhum. Eles diziam que só vivendo bastante para conseguir des-esperar. Abrir os olhos e ver aquilo que não é tão brilhante quanto você sempre sonhou, quanto um diamante. Quem sabe até não fosse frustrante perceber que a mulher mais desejada era a única que passava despercebida. Não era como as que se via na televisão. Como deve ser complicado ser simples. E como deve ser desonesto conosco, que queremos, e com ela, vestir alguém de expectativas a ponto de não poder enxergar a roupa que ela gosta de usar, a cor dos olhos, o corte de cabelo. 
Não fosse essa fixação de nossos olhos em procurá-la por todos os lugares aonde iam, a veríamos onde menos esperamos: debaixo de nossos narizes. Onde o vento bate nos cabelos junto com o balanço do mar, os sorrisos viram gargalhadas por qualquer coisa sem graça, as preocupações com o pão na mesa nos leva ao trabalho, os filmes de domingo na tv são como telas de cinemas com direito a pipoca. Esse lugar tão perto de nós que não é notado, mas é justamente onde tudo de melhor e mais grandioso acontece. Não digo grandioso como grandes eventos emblemáticos. Digo no sentido objetivo da coisa, porque as vezes a riqueza tá mesmo no grão de areia da praia de Ipanema, ou do Farol. É pequena e misturando com milhões de outros grãos, passa total-mente desapercebida. 

Até que um click me trouxe de volta a cena que vislumbrava. 

Não podendo acreditar que ela ainda estava ao alcance de minhas mãos, imaginei delírios e alucinações dessas que surgem quando se deseja tanto alguma coisa que ela se materializa diante de nós, sem jamais ter existido na realidade. Sorte minha que nunca tive problemas em aceitar minha loucura. Fosse um surto, ia abraçá-la da mesma forma como estava prestes a fazer. Quem sabe eu não conseguisse prendê-la em minhas mãos e perguntar por quê, meu Deus, ela fugia de nós. Parecia que tinha medo. Quem sabe fosse de nossa sede. De nossa fome. Quem sabe de tão famintos devoraríamos sem degustar o sabor de eternidade que um segundo junto dela nos dá. 

Não podendo acreditar que ela ainda... a mulher Felicidade passou. (diante dos teus olhos)

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