Foi mesmo impressão minha ou você me olhou nos olhos
justo naquela parte da música? Justo quando eu quis que você olhasse, justo
quando eu também quis olhar dentro de você e saber o que corria pelo teu
sangue, por quem ele fervia, se ainda fervia. - Eu preferi acreditar que era
coisa da minha cabeça, que teus olhos não cairiam de novo nos meus. Aliás, você
me fez acreditar que quase tudo foi coisa da minha cabeça. No final das contas
não sobra expectativa sobre expectativa nem pedra sobre pedra pra juntar os
restos e construir qualquer coisa como um um caminho de volta. O fato é que eu escolhi
desacreditar nos fatos. Mesmo nos teus olhos que se viraram na minha direção e
abriram um sorriso. Fingi que eu nem tava ali, como se eu pudesse querer estar
em outro lugar e aí a música continuava enquanto minha imaginação ia inventando
você naquela letra e de repente você coube perfeitamente em cada verso. Então a
música ia acontecendo e era tão gostoso pensar em você daquele jeito tão
distante, tão distante da realidade. Aquelas coisas que poderiam ter sido, não
foram, jamais serão, entende? Aquelas coisas sim me lembram de como tem força
um desejo amarrado-preso-suspenso-anulado-escondido nas entrelinhas do jeito
que eu finjo preferir qualquer coisa que não tenha você pelo meio. Você pra
deixar a vida assim mais, como eu poderia dizer, mais – pode ser apenas mais? Uma vida mais. Uma vida a mais. Quem sabe assim, somada à minha, a sua também
vire mais e você possa pelo menos uma vez compreender o que eu quis dizer
quando fiquei calada, só te olhando de longe e vendo tudo acontecer e tudo
passar. Porque ia passar, eu sabia que sim, e em algum momento você também
soube que passaria. Nós não nos enganamos. Não quanto a isso. Não quanto ao
perecível. E quanto ao tempo. Depois da música eu esperei você passar pra te querer de volta.
2 comentários:
Cada linha é uma onda que quebra em mim nesse ir-e-vir de poesia que são seus textos.
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