Me apaixonei por você pela primeira vez, era réveillon. Veio junto com as promessas do novo, a vontade de ser melhor. Meu Deus, ia ser lindo. Eu ia te ajudar com todos os seus medos sociais babacas, que eu já havia superado há tanto tempo. Você, em troca, me contaria essas suas piadas bobas, que me fariam rir como nunca, jogando por terra, assim, essa seriedade inútil que eu vinha construindo ao longo desses, até então, vinte anos sem você. O que eu via, era um ciclo começando. Você não viu. Rodei sozinha no nosso ciclo fantástico, e na confusão de te descobrir e decifrar todos os dias, enlouqueci. Na minha loucura, você brilhou sozinho no palco. Se divertiu com os meus escândalos, meus delírios de ciúme, minhas buscas desesperadas por todos os lugares, minha investigação no teu vazio. Tudo estava perdido, então. Até que, aos poucos, de um jeito tão discreto que só alguém com a minha dedicação perceberia, contaminei você. Foi se abrindo, falando que não queria, ia fugir, tinha medo. Tarde. Você me enlouqueceu, e eu te enlouqueci de volta. Não sabíamos mais nos portar de forma civilizada; nos atacávamos beijando qualquer boca, com tapas, conversas contra a parede; tudo para sempre, no fim da noite, cansados da lucidez alheia, pedirmos desculpa e voltarmos à loucura. Começava a ficar, agora, claro para os outros: nos entendíamos no nosso ciclo doentio. Alguns deles, os outros, antes descrentes, começavam a admitir não haver saída para o ciclo. O que só eu sabia, é que, os seus surtos funcionavam te fazendo soltar as emoções arduamente reprimidas, você confessava: não conseguia mais assim, ficaria, queria, não achava possível, mas arriscaria até dizer que precisava... do ciclo sempre. Seu orgulho já era, a loucura é mais forte. Ah, mas você é fraco. Você é um garoto com medo dos amigos, dos pais, de todas as mentes pensantes deles, os outros. Tudo perdido outra vez. Ei, mas eu tenho muita força, te dou toda se você quiser, nasce o tempo todo aqui. Te dei, então, minha força, coragem e vontade de fazer certo. Você jogou fora, se sentiu pesado, complexo demais, o vazio te fez falta. Senti nojo. Nojo é ódio, amor. Ódio é força também, sabia? Caí fora do ciclo. Te vejo rodando sozinho na loucura todos os fins de semana; tropeçando no teu vazio, gritando pro nada. Agora, mais que nunca, você – sozinho, é o assunto preferido dos outros. Me tornei um deles. Não me culpe, a visão é privilegiada daqui; vemos todas as suas lacunas, e são muitas, amor. Mas não se desespere assim. Nós, os outros, vemos uma saída do ciclo pra você: procure no lixo.
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