segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A minha revolta da tua, Veríssimo

Desconheço os valores tão superestimados dos quais você fala com tamanha propriedade e ainda acrescenta "o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade". Só posso mesmo defender, depois desta tua última frase, a idéia de que cada ser humano vive no mundo que constrói dentro da própria cabeça e confirmar a dificuldade que todos têm pra conseguir sair de lá. A sociedade em que eu vivo, não pode ser a mesma da qual você fala, porque os valores sob os quais esse chão foi criado são os lusitanos, a arrogância européia e o espírito invasivo daqueles que jogaram em cima de nós uma cultura como se fosse uma ordem a ser cumprida. O que eu noto agora, é uma estranha similaridade entre o meu desgosto com aquela sociedade - que sequer era nossa e sim deles, porque eles sim habitaram esse país e nós apenas fomos personagens da história de glória e poder de Portugal - com o teu orgulho de encher a boca pra ressaltar a verdadeira luta da população. Me ocorre que eu poderia falar supostamente-verdadeira ou usar a palavra de maneira pejorativa. Acontece que eu partilho da idéia, não é mentira, é verdadeira. O que vem diferenciar a minha lógica da tua é que eu vou ainda mais fundo no pensamento. A lembrança de que a força tem que ser grande, simplesmente porque os tais valores da tua sociedade hipócrita impõe preconceitos tanto quanto os escritos no teu texto, com tão brilhantes palavras quase em negrito piscando na minha cabeça que gays e lésbiscas não combinam com a palavra 'heróis'. O que eu penso de luta e força tem a ver com a dor enfrentada pela parte discrimanada da minha sociedade. Na minha terra não sofre só quem se mantém com um salário mínimo. Nem sofre mais quem é doente. Onde eu moro os doentes são os que olham com ternura pros mesquinhos e os que se alimentam com tão pouco são os que têm coragem pra dividir o pão com quem já teve mais do que eles. Aqui a hipocrisia não é assistir um programa de televisão onde mulher beija a boca de outra mulher e mostra que o ser humano pode ser feliz por muito pouco. A hipocrisia é ligar a televisão pra dizer que o teu merecimento é maior, quando o suor na tua camisa de escritor é o mesmo do que tem na farda da militar que gosta de apanhar. Quem aponta na cara de outra pessoa pra dizer que é melhor, isso sim é hipocrisia, porque por trás do teu dedo ameaçador tem uma história de vida não necessariamente limpa, mas não é por isso que julgamentos serão publicados em forma disfarçada de revolta social. E isso a nossa gente herdou da psicologia - com maiúsculas subentendidas - porque, lá no fundo, aqui todo mundo sabe que sobrevive mais pela capacidade de inventar, de compor músicas cheirando a flor, mesmo sendo nordestino, ou de fazer cultura mesmo não tendo um sobrenome como Veríssimo. A consciência é entendida como responsabilidade e é de admirar que alguém que escreve - acredito eu, não só pra ganhar dinheiro - não entenda a necessidade de distrair - e eu não digo encher, porque essa gente não é vazia - as cabeças de pessoas que passam os dias se arrastando entre um problema e outro. Ou seria ingenuidade pensar que a Rede Globo ganha a toa tantos milhões por conta desse programa. Agora uma coisa não se distingue nas nossas tão diferentes sociedades: a necessidade de renovar as esperanças de pessoas que continuam a viver, apesar de. Vergonha não é mostrar em rede nacional quem se é e porque se é. Acho vergonhoso é ser um escritor tão prestigiado e achar que por isso pode tirar o mérito dos que não usam os mesmos escudos pra sobreviver.

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