"Em todos os lugares do mundo, existe um brasileiro se gabando porque a sua língua é a única que define a falta em uma palavra: saudade. Mas, me digam, quem nunca sentiu que uma palavra, a tal da saudade, era pouco pra explicar o que se sente? ‘Estou com saudade de você.’ ‘Sinto saudade’. Eu, particularmente, acho que até um ‘sinto-a-sua-falta’ é mais válido. Aí alguém pode dizer que é porque eu sempre fui do tipo que gosta de complicar, daquelas pessoas que acham que se você conseguir dizer uma palavra em dez, fica muito mais legal. Tudo bem, admito, sou mesmo assim. Psicologizando um pouquinho (já se tornou hábito, e não faço questão de mudar), ‘a falta é radical’, disse Lacan, tentando explicar um pouquinho da angústia humana. Muitos psicanalistas diriam que a falta a qual Lacan se refere é a do falo; do pai, do sexo, ou de qualquer outra palavrinha chave na teoria psicanalítica. Pois bem, eu digo que a falta é radical e pon-to. A falta daquilo que você nunca imaginou ter, de repente teve, e mais de repente ainda, não teve mais. A falta do tempo que a gente tinha pela frente. No caso de alguém bem neurótica como eu, até a falta faz falta, quando você para de sentir falta. Deu pra entender? Como alguém diz por aí: a falta que a falta faz. Bom, o que eu queria dizer quando comecei a escrever era que o mais chato é sentir falta de quem a gente foi e não é mais. Com a licença do meu querido Skinner: o mundo tá aí, com mil estímulos, você recebe uns, devolve outros, e essa matemática causa uma mudança absurda todos os dias, e a parte mais difícil disso tudo, é aceitar quem você se tornou. Se desfazer dos parâmetros antigos, o tempo todo. E isso não é castigo cósmico, nem karma, nem nada além de: consequência de estar vivo.
A falta sempre leva um pouquinho de quem você foi, e quem você vira depende também do que a falta deixou."
(Carolina Pinheiro)
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