Essa sensação e-terna de vazio, de falta, de nada. Sentir nada. Cheguei a esse ponto. Quão lamentável pode ser sentir nada? Uma espécie de torpor, quando você entra em um mar de água gelada demais e por alguns minutos tem a impressão de que está sendo atingido por milhões de facas em todo o seu corpo, fique tranquilo porque os próximos instantes serão de completo torpor. Você já não sente o frio, as facadas, a dor que não te matara por muito pouco, tão pouco, mas tão pouco que foi quase nada. E o nada aparece mais uma vez como se ele fosse tudo. E era palpável. Era assim que sentir nada parecia, parecia com sentir tudo, a todo momento, sem parar, sem ter sequer tempo de respirar aliviado. Sentir nada era pesado pra alguém como eu, tão acostumado com o coração sempre cheio. Nada parecia com uma companhia inconveniente de uma pessoa mais vazia do que eu. Porque sentir nada também doía como tudo. Olhar o tempo todo ao redor procurando alguma coisa como um tapa buraco pra preencher o nada também cansava, como cansava antes os olhos procurarem por você em tudo. Como alguém pode viver só com nada? Eu e nada. E esse peso vinha contrariando a antiga convicção de que eu devia mesmo me esforçar para deixar de sentir você em cada parte do meu corpo. Afinal de contas, se eu deixasse de sentir tudo, eu finalmente estaria livre - pra nada, acabei descobrindo. Então eu consegui. Eu-senti-nada escorrendo em minhas veias, como se fosse a loucura que escorria antes. É tão difícil de transformar uma coisa em outra. Talvez tão difícil como foi ter transformado o que eu tinha no que eu não tenho agora. Eu senti você pela última vez antes de sentir nada. Foi o seu corpo pesando sobre o meu e sua respiração guiando o ritmo dos meus beijos. E eu fico aqui imaginando, pensando, sei lá, tentando formular alguma teoria muito boa a ponto de me convencer de que em algum aspecto, não tenho ideia de qual nem por onde ele anda escondido que eu não encontro, mas em algum aspecto ter me transformado em alguém capaz de não sentir o amor, o maior dos amores, o amor que enlouquece, o amor de verdade, o amor tão amor que não poderia ter outro nome, alguém capaz de sentir nada, uma teoria sobre pelo menos um bom aspecto de sentir nada. Eu continuo pensando, me perguntando, quase nunca me convenço facilmente, e enquanto vou tentando continuo quase querendo voltar a sentir você só pra deixar de sentir nada.
2 comentários:
Como eu te falei, mais cedo, faz parte. Esse vazio existencial que vai lá no fundo e volta feito vômito faz parte do processo de deixar de sentir aquilo pra, depois do vazio e do vômito, sentir uma outra coisa. Quem sabe uma coisa mais bonita, uma coisa mais leve, uma coisa que ocupe o vazio, tape o buraco e ainda te deixe feliz?
Esse grande balão cheio de nada que vira nosso coração deve servir pra alguma coisa. Concordo com o Tomaz. Vai ver que é o tempo que precisamos pra respirar todo esse vazio, tempo de prepararmos nosso coração pra enchê-lo de coisas novas, boas, ruins e intensas de novo. Eu espero.
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