Se minha quase constantemente falha memória não me engana, a última vez que eu senti uma coisa parecida era começo de uma noite qualquer de inverno, chovia mas o céu era bonito. Foi previsível que eu fechasse os olhos e meu estômago embrulhasse - as tais borboletas existiam, eu já sabia. Minhas mãos geladas não sei se porque a roupa tava molhada no meu corpo ou simplesmente porque tinha uma outra pele grudada por cima da minha roupa molhada. Talvez minhas pernas não tivessem balançado se além daquele outro corpo eu não tivesse sentido uma alma, uma coisa maior e mais leve. De repente fosse um coração batendo como se estivesse apressado, correndo, desmedido - do jeito que todos deveriam ser. Dizia que eu quase lembro perfeitamente como aconteceu quando eu senti, não fosse a falta de confiança que tenho na minha memória. Ou a falta de atenção que eu prefiro dar a ela. Não sei, por qualquer coisa como uma falta, eu decido que memória não deve ter credibilidade e apenas por isso eu não posso jurar que lembro exatamente como tudo aconteceu quando eu senti. Mas as formas as quais os corpos tomaram, os moldes das mãos se tocando, os braços se envolvendo como serpentes em volta da presa, como que apertando e lutando pra matar a fome de semanas, talvez meses, bem, essa parte da história eu posso fingir que nunca precisei esquecer.
Esse arrepio que dá dos pés a cabeça, junto com essa borbulha no estômago, e o tremor das mãos se misturando com a instabilidade das pernas - não parece um pouco com medo? Pensei que fosse coisa que as pessoas sentem alguns minutos antes de se encontrar, quando se encontram e na hora de se deixar. E talvez seja. Digo, talvez seja isso também, porque paixão não exclui medo e vice-versa. Quem sabe não são até sinônimos? Assim, como se fossem escritos pra dizer a mesma coisa. De repente o que antecede o momento, assim como o próprio momento e o depois de tudo seja mesmo uma loucura de dar medo. Só existe loucura depois que você perde, sei lá, alguma coisa ou todas as coisas, a solidão, a insegurança, o passado ou então o amparo, os planos, o futuro, o amor, o chão, a razão - perder o controle. Dar-se-de-encontro é também perder um pouco ou muito de tudo, ou trocar - o que também pode significar perda. Perder dá medo e ser louco dá disso. Assim como ser passional - o tal do encontro, a tal da sensação.
(Ia falando sobre a sensação, não sobre a pessoa. É preciso ter bastante foco pra não se perder falando sobre perdas - não sobre faltas, que são mais graves, mas sobre perdas, que são cotidianas como os encontros.)
(...)
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