Demorei a atravessar aquela tarde, como se demoram os aviões a decolar quando há pressa de estar logo em outro lugar. Ou como quando vive-se umas trinta vidas a cada madrugada longa em que permanecemos insones.
Engraçados são os truques do tempo, do passado, e o que mais me tira o sono: futuro do pretérito. No meu coração demorei tanto a passar naquela tarde - e passaria, como de costume, e não tanto quanto eu gostaria.
No relógio havia passado apenas alguns minutos desde que você me sorriu da última vez. Teu sorriso jogado por cima do rosto, quase escondido pela segurança dos olhos e amansado pela incerteza das mãos, quando conversam por gestos e deixam escapar carências. Te conheci com as mãos carentes de amores eternizados pelo tesão entre as peles de dois corpos que pra sempre se atraem. Mãos que tocaram o outro corpo, o meu, com muito cuidado, como se fosse papel, pudesse rasgar em pedacinhos e o vento levar pra longe qualquer hora dessas. Desse jeito com que se toca uma coisa leve que pode voar a qualquer momento, borboleta. Foi você que fugiu do potinho sem nunca me deixar responder que eu te quis livre. Aquelas mãos, como asas, detalhadamente desenhadas, ricas em palavras. O meu sorriso quando vinha o teu cheiro, como uma criança que não sabe a hora de se conter, eu fiz questão de esquecer tudo sobre limites - eu mostrei o meu sorriso. Da forma mais contida com que alguém pode esconder a vontade de gritar, eu te guardei em pensamento porque assim foi possível te deixar livre. De repente a atmosfera dentro do teu mundo não pudesse comportar o meu peso de papel muito frágil, ainda que eu tivesse esbaforida de tentar acertar e caber nos moldes. Por alguma razão eu quis lembrar quem eu era antes do teu sorriso cair sobre os meus lábios, porque nesse exato momento eu por pouco não me perdi tentando encontrar um meio termo pra te agradar. Eu detesto meios termos. Esse meu jeito ansioso de querer agarrar e ao mesmo tempo de não deixar que se perca um segundo sequer pelo deslize que cometem os apressados. Esses truques do tempo, como eu havia falado há muito. Essa maneira mole e inofensiva com que as mãos pregam e grudam apenas pelo vício de arrepiar peles quando encostam-se - e pelo desejo. A-pele-desejo. O corpo era meu e arrepiava a medida que tua respiração mansa parecia acalmar minha vontade de mergulhar no fundo e perder o ar até o desespero. Esse meu jeito de andar a passos largos com minhas pernas curtas, sempre acabo tropeçando antes do melhor da história.
Um comentário:
A última frase me faz acreditar que continuaria brilhante ainda que não tivessem as linhas precedentes. Autoconhecimento é mesmo fantástico.
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