quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dessa vez era amor

Que na ausência se revelassem os traços, os pequenos, os menores deles, todos estes milhares que coubessem no espaço denso e tão longo entre desejar alguém e ter coragem de assumir responsabilidades destes desejos, espaço de andar infinitos passos dentro da sala, ir e vir dezenas de vezes com cigarros incontáveis nas mãos, e se perder pelo meio dos pensamentos como se estivesse pelo meio de alguma espécie de labirinto de frases não formuladas, não ditas, e caminhando apressado por entre um amontoado de vergonhas e covardias e vontades, que menores que os desejos, não fossem suficientemente arrebatadoras para forçar os beijos a saírem da cabeça e partirem para os lábios, já previamente molhados de imaginar como seria o outro lábio, e tão distante este último que mais uma vez tudo se perdia dentro do peito apertado, e as mãos voltavam a passar pelas cabelos, acariciando-os como quem procura aliviar a própria dor, mas não como autocomiseração, tampouco autopiedade, era mais firme do que isso, podia garantir e até deixar escapar pelos dentes cerrados de raiva por ser em outros momentos tão fraco, a ponto de não poder honrar a intensidade do sentimento e juntar nos olhos os sorrisos que sorria sozinho quando lembrava do cheiro dela, a raiva de não ser capaz de gritar que virou amor, e talvez isso assuste mais do que queira, mas que era isso e por favor, abra os braços pra receber essa notícia porque não podia precisar em que ponto lhe escapou dos dedos a certeza de jamais deixar que aquela paixão se transformasse em algo ainda mais, mas guardava no fundo dos olhos a sensação pela primeira vez doce de sentir perder o controle e querer abraçar essa loucura porque era amor e amor é sim, não talvez, não podia esquecer de como sentiu o corpo inteiro ficar leve, na medida certa para correr sem cansaço ao encontro dela, que não procurava notícias suas há tanto mas tanto tempo que preferiu pensar que vivia muito ocupada, como era nos tempos antigos, quando ainda costumavam procurar horas, mesmo que fossem poucas, para encaixar cafés e conversas bobas entre a correria do dia, e quem sabe quando encontrasse e tocasse suas mãos, aquelas que nunca, jamais pudera esquecer, ela entendesse tudo o que calou o coração durante os dias em que não pôde achar o jeito certo, sabe lá se isso existia, o certo, mas que fosse então o jeito menos errado de dizer a alguém que agora era amor.

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