sábado, 7 de julho de 2012

non sense

Nunca pensei que fosse tão leve o estado de liberdade. Na verdade, eu talvez associasse ser livre com um peso grande de responsabilidade. Sequer cheguei a imaginar, ou lembrar, pra ser mais precisa, porque de fato algum dia nessa minha vida eu já devo ter sentido isso ou algo parecido, e é claro que esqueci, porque em se tratando da minha memória, a seletividade é pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista) do que poderia ser até meu coração depois de passada toda a tormenta e estrago daquele furacão, sim porque depois de ter acordado meio zumbi dentro de um corpo parecido com uma cidade depois do tsunami, eu descobri que não deveria lutar contra o desprezo pelas pessoas e suas histórias mal contadas, ainda que fossen verdades mal-ditas, mal explicadas, não importa, entende, era melhor mesmo que eu não voltasse a ousar e nisso concordei com cada uma de todas as milhões de auto-regras impostas pela cabeça atordoada. Mas o que eu dizia era do depois, de quando você já não espera nada da vida - embora continue buscando incessantemente por alguma coisa, talvez alguma razão, ou que finja que está fazendo isso, porque fingir pode ser bom, em algum nível bem próximo ao mais alto que se pode chegar quando a realidade tem cara de uma coisa que eu tento me concentrar pra achar a palavra mas não me vem, não tão fácil como deveria, ou nem devesse já que naquele tempo nada foi assim fácil - então você permanece andando pelo meio dos destroços em que você se meteu, sim, porque foi você quem escolheu morar naquele lugar com iminência de catástrofe, e eu digo iminência porque risco me parece algo mais suave e nesse caso eu sabia que a água poderia invadir e destruir tudo algum dia, pra não ser mais drástica e dizer a qualquer momento, até que ela vem, porque o inevitável acontece e isso não depende da sua desesperada vontade de criar barreiras de proteção pra tentar evitar perder todo o sonho construído com muito suor da alma e chamado simbolicamente de vida amorosa. No instante logo após decidir procurar de baixo dos entulhos que o mundo virou depois de ser virado de ponta a cabeça, os restos do que outrora fora você e aceitar correr o risco de se deparar com apenas folhas rasgadas do seu livro favorito e sentir a dor de perder ali, junto com o livro, a pessoa que te deu ele de presente, por exemplo, você esquece totalmente que embora tudo esteja resumido a nada, ainda existe a possibilidade de sentir o gosto da sua comida preferida, de olhos fechados, como se o cenário ali nem fosse devastador, de repente você imagina a Itália, quem sabe quando os olhos se abrirem de novo a vida não comece a fazer outro sentido, muito diferente daquele anterior de levar uma vida previsivelmente a beira do caos, agora deveria ser duro como carregar todos os tijolos das paredes pra erguer uma casa que vai estar vazia. Nessa hora você descobre, porque já tinha desaprendido a ver, a delícia que é entrar em um lugar vazio de expectativas e ter a grata surpresa de conseguir construir um lugar limpo, leve, branco, por cima daquela realidade que mais parecia uma distorção da visão. Não há nada como ser livre pra sentir-se leve, pra acreditar-se capaz de voar com a força só de um fechar de olhos de um corpo descansado jogado por cima de uma cama macia. 

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