Sinto pelo Vinícius. Sinto muito mesmo. Meu peito parece oco da falta de Vinícius. De sua voz já cansada mas para sempre amável, com aquela implícita e contínua vontade de recomeçar. E o que sobra dos amores - além do cinismo - senão o recomeço? E ele bebia e falava como amava aquela mulher, contava que batera à sua porta, já era madrugada, mas ele precisava mesmo falar, não não, avisar, comunicar que ainda a amava, e não pelo whisky que bebera, mas pelo coração que palpitara. Ela não voltou. Mas ele, sendo ele, no que há de mais essencial em ser Vinícius, casou-se outras 6, 7, 8 ou 9 vezes. E amou a todas as mulheres compulsivamente. Não como a ela, mas inteiro como sempre.
Sinto pela Elis. Sinto muito mesmo. Meu peito parece aflito da falta de Elis. Como se faltasse uma gargalhada verdadeira em toda essa felicidade derramada. Talvez falte qua-qua-ra-qua-quas. Ela não sorria, ela gargalhava como quem expulsava os demônios da alma. E muitos demônios também foram cuspidos dos seus olhos. Que dor, Elis! Que dó. Mas eu escolho aquela ciranda do Arrastão, Rainha do (A)mar.
Sinto pelo Tom e por tantos. Sinto pelos que estão vivos.
Sinto por você não ter tido sensibilidade. Por não ter alcançado nunca as músicas que te jurei, as promessas que te cantei, os elogios que te cantei. Sinto muito mesmo por você não ter podido viver o amor que eu vivi. Não sinto por mim, porque fui tua sem arrependimentos. Fui toda tua em todas as manhãs. Em todas as ausências eu permaneci sendo irremediavelmente tua. Não poupei o amor, não pensei em mim, não hesitei em chegar à exaustão para agora poder dizer que eu vivi, não só sonhei. Pena você não ter escutado mais vezes Vinícius. Pena você não dar atenção à Elis, ao Tom, a Nana, Gal, Bethânia, Moska, Marisa, Chico. Te dei o mundo, a lua, Jupiter, Marte, a constelação que ainda nem foi descoberta, te dei o futuro embrulhado em um pacote para presentes. Estava tudo escrito ali, onde você não leu. Estava tudo nas músicas que você não ouviu, nas peças de teatro que você não quis ver, nos filmes que você dormiu, nos museus que você esqueceu. Sinto muito mesmo por você.
Nenhum comentário:
Postar um comentário