segunda-feira, 7 de março de 2011

Outros carnavais

Na segunda-feira já só tinha ficado os restos. Confetes e serpentinas pregados nas fantasias ainda molhadas. E gostos ruins pela boca. Sobras de ontem, anteontem. O café não curou a ressaca, quanto mais a nostalgia das marchinhas. As mesmas letras que tocaram no ano que passou, e no anterior também. Antes disso não importava - não a mim, não quando eu voltava a acreditar, como nesses dias. Os olhos pesados e aqueles sonhos presos entre as pálpebras, como grades de prisão. No meio da rua nada disso fazia sentido. Não com todas aquelas pessoas me olhando e sorrindo. Nem no meio daquele colorido que brilhava os olhos de quem via. Mas era preciso querer - e eu queria. Te queria tanto, assim, com força, como se pudesse a fantasia virar outra vez realidade, só porque era carnaval. Ou então porque eu trazia no pescoço um colar de fitas azuis, vermelhas e amarelas e essas combinações deixam as pessoas mais vivas, talvez. Ou as ruas, que pareciam pinturas de algum artista mais feliz do que famoso. Por essa loucura que mistura os amores com as amizades e confunde os inimigos com amantes. Ora, e por que não? Se podia o Pierrot ser de novo o par da Colombina, podia também ninguém mais usar máscaras negras. Pensava devagar como podia ser alegre desse jeito e ir-se deixando levar pelas esquinas sem precisar das malditas máscaras. De repente todos estariam lá não para mentir que são super heróis. Mas pra ter algum pretexto pra gargalhar sem dar satisfação sobre a sua felicidade, como se tivessem os tais super poderes porque vestiam aquelas roupas engraçadas. E olhavam-se dentro dos olhos pela primeira vez, desacostumados dessas intimidades, porque quem sabe não precisassem mais se esconder por trás de nada. Ia querendo que fosse tempo de não fingir demasiadas sentimentalidades urbanóides, mas ao contrário, se jogar dentro do bloco e viver como se fosse o seu personagem preferido, e acreditando que era. Quando finalmente acabou sendo, ele soprou aos meus ouvidos: era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no carnaval.

3 comentários:

Anônimo disse...

Esse texto ficou demais, sério!

Fernanda Figueira disse...

Lindo!

Márcio Moreira disse...

Quando te leio, sinto arte no sangue da gente... Teu carnaval em frangalhos é pura poesia!
Meu Orgulho, Minha prima!