segunda-feira, 6 de junho de 2011

De rua

Eram os lábios brilhando com o batom vermelho e chamavam a atenção dos homens que desrespeitavam suas mulheres pra olhar. E quando tocavam o pescoço dele quase sem pudor por trás da respiração seca e assim ia acontecendo a noite. Era uma quarta-feira, mas isso já não significava nada diante do sexo ereto, comprimido dentro da calça de linho. Um moço sério, que acabara de sair do trabalho e não procurava nada pela rua, até se deparar com aquele vestido preto, desenhado sob medida. Ela toda sob-medida - como a letra de Chico - vinha andando na direção dele, que costumava não ter a cabeça erguida, por pura falta de prática e quase por falta de sorte ele perde o momendo exato de vê-la passar. Então o quase inclinou mais pro lado esquerdo da balança, caiu no chão, ele se assustou com o barulho, levantou a cabeça. Eram os olhos de contorno preto, encarando os dele, que piscaram pra ter certeza do que tava vendo. Não estranhe se parecer que se trata de uma mulher da vida. Só não ouse desmerecer a tortura massacrante que aquele conjunto representava a qualquer homem. Num repente de urgência, os olhos dele encontraram os ponteiros do relógio e a lua marcava alguns minutos depois das nove. Mas ele já não tinha hora pra nada, nem coração. Com instinto de animal, parecia faminto, com desejo de carne, de cor de sangue, do batom vermelho dela borrando inteira sua boca e deixando marcas pelo resto do corpo. Era a primeira de muitas vezes das quais um pensamento tornava-se real na cama, exatamente como foi criado na cabeça. Perdidos no encontro, não souberam lembrar quais gestos fizeram desaparecer todas as pessoas da rua, sem que restasse viva alma pra testemunhar a precisão das mãos quentes dele escorrendo pelas costas lisas dela. Ela lambendo a orelha dele, ele mordendo o ombro dela, e as mãos - dele e dela - apertadas, uma contra a outra, enquanto o desconhecido dele penetrava os segredos dela. Os movimentos iam invadindo a madrugada, derrubando as cadeiras, esbarrando nos copos de whisky até pararem em cima da mesa de algum bar, imaginando uma música tocando e ficando cada vez mais alta, talvez tão alta quanto os gemidos que saiam do ventre dela ou as palavras gostosas dele que jorravam na cara dela e pedia mais, mais, mais. Ela dava ainda mais do que ele pedia e ele ia querendo ainda mais do que merecia - como costumava ser na vida sem ficção, a-vida-real.

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