O óbvio ao qual você se refere é o comportamento, meu caro? Poderia até fazer sentido, caso você mesmo não fosse esse monstro desconexo e cheio de desejos recalcados que vão de encontro com aquela tabelinha de valores morais que o papai te ensinou. Ou você tava tão ocupadinho com o trabalho massacrante da redação onde você trabalha, que acabou não notando que de simples, prático e objetivo você não tem nada? Porque não é falando cheio de autoridade que eu vou ter medo e você vai ter mais razão do que eu. Já sei! É mal de jornalista, né? Essa coisa de achar que entende mais do que todo-o-mundo. Tô sabendo. Mas vou logo abrindo o jogo contigo. Mal de psicólogo é muito pior. A gente não só acha que sabe, a gente vai lá e te faz deitar no divã até gozar a vontade de comer a sua mamãe. Te provo como é bom, viu? Não, meu bem, eu só usei 'provo' como força de expressão. Ninguém aqui falou em experimento científico. Olha você me antecipando de novo. Calma lá. Take it easy. (jornalista também adora atravessar o pensamento dos outros, né?) Como eu ia falando, a gente tem uma técnica que te faz morder a língua rapidinho. Ou não, dependendo da tua resistência de homossexual-que-se-diz-bem-resolvivo-e-não-aceita-que-possa-ter-uma-supercrise-existencial. Voltando a técnica, querido. Você senta aqui na minha frente e eu te provo que tudo isso que você chama de minha-vida só acontece graças ao fato de você ser um puta sujeitinho cheio de complexos. Presta atenção, eu nem falei que o problema é ser gay. Mas que coisa! Tá mais pra paranóia e delírio de perseguição do que pra alguém vítima de preconceito, hein? Eu usei a palavra 'complexos' pra deixar claro que é o oposto ao óbvio, que você usou pra definir comportamento. Ora, eu lá tenho cara de quem escolhe passar a vida inteira empenhada em descobrir uma coisa que é óbvia? Me poupe tempo e dinheiro, mon'amour. Aliás, tá sabendo que a minha profissãozinha tá dando grana, né? E eu vou te contar que nem preciso me abalar pra Europa porque em qualquer lugar desse mundo existe mercado pra mim. Cabeças-duras existem aos montes, cherry. Aqui ou na China eu tenho meu ganha-pão garantido. Mas me conta aqui, pra que você vai pra Portugal? Ah sim, se especializar, verdade. Eu acho válido, juro à você. O jornalismo nesse país tá a mesma bosta de sempre , né não? Me corrige se eu tiver enganada, mas pra mim, vocês continuam sendo pagos pra escrever o que o poder quer ler. E se for revoltadinho e não quiser escrever? Você prolonga ao máximo os estudos e usa a desculpa de que tá sempre se atualizando. Mas lá no fundo você sabe que tá fugindo, né? Vai pra Europa fazer a primeira pós, depois pro Japão atrás de uma boa pesquisa de campo, quem sabe volte pra São Paulo. Ouvi dizer que lá os jornalistas se dão super bem. Mas assim, você só vai falar do que interessa seu chefinho, tá bom? Não pra gritar pro mundo que todos temos direitos iguais e que a escolha sexual não diz nada a respeito de quem você é como pessoa. Chuta aí quem foram os primeiros a levantar a bandeira de que a homossexualidade não é doença? A propósito, sabe quem é que te faz parar pra pensar que essa pessoa que você descreve como sinônimo de merda é um todo que não se define por uma parte que não presta? Não entendeu? Tô falando da merda que sai daí de dentro. Do teu dark side, meu amor. E de mim, que sou a pessoa que cria as condições necessárias pra te colocar em contato com o mundo, sem que você pire por causa disso. Ficar louco, pancadinho, doidão, isso mesmo. Ou quem sabe escrever até as mãos quebrarem de cansaço, porque enquanto você publica textos falando da política local ou das eleições pra presidente, você livra a sua cabecinha fraca de descobrir que pode ser tão culpado quanto você diz que eles são. E não vem com esse papo de que eu tô generalizando. Quem generalizou aqui foi você, quando apontou pra mim dizendo que na minha universidade a gente se prepara pra analisar o óbvio. Mas houve um equívoco. Você esqueceu que o óbvio é o contrário do avesso. Eu quero saber quantas vezes você gritou que é diferente do resto das pessoas e se achou o máximo por isso. Se fosse óbvio querer forçar ser do avesso e não passar disso aí, você nem ia precisar gritar. Ora, vamos falar francamente, porque a verdade é a parte que me cabe nessa história. Eu deixo pra você as mentiras lavadas e hipócritas das quais eu leio nos jornais por aí. Inclusive, não desconsidero nenhum dado, viu? Tudo isso é importante pra que no acerto de contas, você perceba quem você era antes de me conhecer. Aqui há prepotência sim, jornalista. Mas é pra deixar muito bem claro que antes de você achar que é Deus, existe uma legião de pessoas como eu, pra te contar o que é um delírio de grandeza.
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